UMA PERGUNTA POÉTICA

Em verdade é o amor que sentimos por algo ou alguém que os tornam belos.

Amei a grandiloqüência da mensagem dessa publicidade (Por isso prefiro a Boticário): “Beleza não é só o que você vê, é o que você sente.” Não é bonitinho, queridos (as)?

Ora, o sentimento é subjetivo e complexo, ou seja, constituído por um conjunto de coisas e não apenas por um elemento específico, embora possa acontecer (ou seja, ser formado por um único elemento específico) em pessoas superficiais, sexistas e visuais. Alguns amigos meus, em que pese à revelação, são assim e confessos. Mas eu não. Cada dia que passa se fortalece mais minha convicção de que sem conteúdo (cultura no sentido clássico, científico, jurídico, histórico, filosófico e literário, entre outros) e sem caráter (integridade moral, ética e respeito aos outros) não é possível chamar a isso de “beleza”. Sem contar o mergulho misterioso do sentimento no incognoscível, às vezes.

Eu me lembro de ter lido esse poema pela primeira vez no último ano do ensino médio numa chuvosa e fantasmagórica noite de outubro ou seria novembro? Os três primeiros versos nunca se apagaram da minha memória. O poeta Fernando Pessoa escreveu assim:

“O Tejo (maior rio de Portugal) é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”

De fato, beleza não é só o que você vê, é o que você sente e o que você sente é determinado pelo o que você ama e o que você ama é determinado pelo o que você admira e o que você admira é determinado pelo o que você é. Por isso, me parece natural que pessoas diferentes tenham pontos de vistas diferentes sobre o conceito de beleza ou do que merece ou não ser amado. Para julgar com justiça essa causa o indivíduo deve procurar se perguntar o que ele é, o que ele ama e o que ele admira.

Por exemplo, você é uma pessoa egoísta ou generosa? Uma pessoa visual ou afetiva? Uma pessoa materialista ou solidária? Uma pessoa autoritária ou democrática? Uma pessoa dissimulada ou sincera? Uma pessoa invejosa ou íntegra? Como já observado, pessoas que são diametralmente opostas cultivarão visões distintas sobre o significado de beleza, o significado de virtude, o significado de justiça, etc… Tudo depende da sua essência, do seu perfil, valores, desejos e preferências. Segundo Zack Magiezi “Se envolver com alguém somente pela aparência é o mesmo que ter uma casa e contentar-se em morar na calçada em frente à fachada.” Quantos livros possuem belas capas e ao lê-los percebemos que perdemos nosso tempo? “A experiência leva à evolução.”

Em verdade é o amor que sentimos por algo ou alguém que os tornam belos. É claro que existem pessoas esteticamente belas independente de serem ou não amadas. Quantos atores existem que são belos? Muitos, não? Quantos você ama? Captou? Aquilo que não amamos é algo vazio e desimportante e dependendo das circunstancias pode se tornar maçante e até mesmo insuportável, não importa o quanto mendigue nosso afeto ou nos acuse de ingratidão por desamor. Recapitulando: a beleza depende do que você sente e seu sentimento do que você é. O Tejo é mais belo que o rio que corre pela sua aldeia?

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Sobre o autor

Thiago Castilho

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.