‘A vida é o que acontece enquanto estamos pensando em outra coisa.’

Saborear e apreender uma coisa de cada vez; esse deveria ser o nosso objetivo, pois quanto maior nossa pressa, maior é o nosso tempo perdido.

Eu sei, o tempo está correndo. Há muita informação, muitos acontecimentos, não conseguimos acompanhar. Deveríamos? Não seria melhor estipular critérios, dando prioridade às coisas que realmente possuem prioridade? Entretanto, nos dispersamos entre uma coisa desimportante e outra ainda mais desimportante, quando vê, o dia já passou, a semana já passou, chegou o fim de semana. Oh, se foi o fim de semana… Se foi o ano. O que fica é a sensação de vazio, a sensação de não termos aproveitado como gostaríamos.

Porém, é válido lembrar que somos nós quem escolhemos quem queremos ser, somos nós que decidimos como gastar nosso tempo, então, por que permitimos que a correnteza nos carregue?

Ficamos submersos em coisas que talvez, nem tenham tanta importância quanto parece. Eis um outro problema visível; damos demasiada importância ao desimportante, nos preocupamos muito com o futuro, enquanto seria bom que percebêssemos que a vida só acontece no agora.

Inúmeros filósofos já dissertaram a respeito da dificuldade que o ser humano possui em viver no presente, vivendo constantemente com um pé no passado e outro no futuro. Na verdade, o desafio é exatamente esse; o de viver no agora, pois só dessa forma é “viver”, o passado é lembrar, o futuro idealizar, mas nunca viver.

[…]Daqui nasce a luta contra o tempo, para tentar roubar-lhe mais chances e ocasiões do que aquelas que o destino gostaria de nos conceder. Daqui brotam as infinitas artimanhas para economizar tempo recorrendo a telefones e aviões, para enriquecer o tempo escutando rádio enquanto andamos de carro. Para programar o tempo, recorrendo a agendas sofisticadas e a cursos de administração do tempo, ou para armazenar o tempo com secretárias eletrônicas e videogravadores.

Neste ponto é que o nosso cérebro corre o risco de entrar em parafuso. Depois de ter desencadeado a corrida contra o tempo, não consegue manter o passo e tenta se “virar em dois”: enquanto faz uma coisa, já está pensando na que vai fazer depois. ‘A vida é’ – dizia Oscar Wild – ‘o que acontece enquanto estamos pensando em outra coisa.’

Eternamente mordidos pelo bicho-carpinteiro da velocidade urbana, consumimos o luxo das raras pausas, sonhando ou perseguindo a tranquilidade perdida no mundo rural. Dentro de nós, o impulso à pressa se alterna com o impulso à calma, do mesmo modo que o nosso espírito nômade cede de vez em quando ao nosso espírito sedentário. Mas o ócio é uma arte e nem todos são artistas.

Domenico de Masi. In: O Ócio Criativo

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Sobre o autor

Isadora Tabordes

Isadora Tabordes

Cofundadora e desenvolvedora dos sites Vida em Equilíbrio e Demasiado Humano. Graduada em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas. Atualmente é mestranda em Filosofia Moral e Política pela mesma universidade. 

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto, do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é...
E se soubessem quem é, o que saberiam? Fernando Pessoa