Artigos Colunistas

Podemos nos apaixonar sem querer levar pra casa?

Deneli Rodriguez
Escrito por Deneli Rodriguez

Podemos nos apaixonar sem querer levar pra casa?
Sem tornar “nosso”?
Ao nos apaixonarmos por alguém imediatamente surge o desejo de continuidade. Queremos prolongar aquela sensação e repetirmos a experiência inúmeras vezes. A paixão nos coloca num lugar de empolgação e nos dá a oportunidade de projetar, de vermos nossos sonhos e desejos realizados. Saímos de nós, mas a impressão é de que estamos mais ainda em contato com nós mesmos, afinal, começamos a enxergar o futuro que planejamos tomando forma.
Finalmente iremos realizar o nosso ideal romântico com alguém que nos corresponda.
O problema é que o ideal é o não fato.
Deixamos de ver os fatos como fatos e passamos a enquadrar tudo no nosso ideal. Forçamos o outro e as situações a se encaixarem para a satisfação do nosso ideal. Ideal é projeção, é construção, condicionamento, desejo de segurança e estabilidade.
A mente está sempre procurando por controle e segurança e com a paixão não é diferente.
Se conseguíssemos nos apaixonar sem querer “levar pra casa”, sem querer tornar “nosso”, viveríamos situações de paz e alegria, pois o tornar nosso é uma construção do outro e da relação que não tem nada a ver com a realidade.
Esse levar pra casa nada mais é do que se apropriar de uma situação e do outro para encaixar nas nossas expectativas e desejo de segurança.
Ao mesmo tempo, ao alimentarmos o ideal, aumentamos a vontade de querer mais. Tão logo o outro faça o que esperávamos, surge o desejo de mais. Nunca nos sentimos satisfeitos. É como apagar uma fogueira com gasolina.
Enquanto o outro for exatamente o que queremos, a paixão se sustenta, mas ao começar a não corresponder às nossas expectativas, ao invés de sabermos e vermos o jogo do ideal que estamos fazendo, nos frustramos.
Se estivéssemos realmente atentos, veríamos que um ideal não tem como se sustentar por muito tempo e ao não sermos correspondidos como gostaríamos, encararíamos como natural. Não sofreríamos e entenderíamos que esse momento inevitavelmente iria chegar.
Para isso acontecer, é necessária uma grande capacidade de ver a realidade como ela é. Parece que temos uma dificuldade em ver as coisas como são e também em abrir mão dos jogos que fazemos.
O mais comum é que ao não sermos correspondidos como gostaríamos, não queiramos encarar a realidade, que queiramos manter o transe da irrealidade, das projeções, dos desejos e das expectativas.
Inventamos desculpas para o comportamento do outro. Sentimo-nos desprezados. Queremos entender e conversar do porquê houve uma mudança no comportamento. Desgastamo-nos pensando onde erramos. Culpamo-nos por termos feito ou dito alguma coisa. Culpamos o outro pelo mesmo motivo.
Estabelecemos rotas de fuga.
Como é difícil encarar que as coisas não aconteceram como queríamos. O outro não é aquele que imaginamos, não temos controle de nada nem de ninguém.
Se apaixonar sem querer levar pra casa, é deixar a situação e o outro serem o que são e se relacionar com isso. Sem controle. Sem planos.
Deneli Rodriguez.
13.09.2017.

Comentários

Comentários

Sobre o autor

Deneli Rodriguez

Deneli Rodriguez

Pensadora, escritora, especialista em autoconhecimento, participa de grupos de filosofia e meditação. Trabalha com Ayurveda e Yoga em consultas individuais e em cursos para grupos. Estuda Vedanta e Budismo. É também atriz, cantora e estilista. Formada em Relações Internacionais na PUC-SP, Semiótica, Moda, Ayurveda, Yoga e Artes Cênicas.