Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade

Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade“, disse Henry David Thoreau em sua obra magna “Walden“.
 
Talvez, até mesmo em uma interpretação errônea de minha parte, mas que em nada compromete ou anula a grandiosidade da citação, eu veja o que o autor trata como “verdade”, de uma forma excessivamente ampla, ou seja, penso que seja possível colocar tal palavra, carregada com seus significados, em qualquer âmbito de nossas vidas, razão pela qual dou início colocando-a nas pessoas.
 
Sempre admirei mais aquelas em que conseguia visualizar “verdade”,e, muito provavelmente, não sabia dizer do que se tratava. O que era, afinal, esse algo a mais?
 
Verdade.
 
A verdade não estava no que diziam, no que faziam ou no que ouviam. A verdade poderia estar em um agricultor, em um fazendeiro ou em um viajante pedindo carona na estrada.
 
As melhores coisas estão frequentemente em lugares inusitados, em situações até mesmo corriqueiras, as mesmas que costumamos não esperar nada, as mesmas em que a maioria passa e nem olha.
 
Algo como ter um tesouro no canto de um prédio sujo, mas você passar, apressado, eufórico com a correria da vida e não ver o seu brilho.
 
A verdade estava ali, no encanto dos olhos, na maneira de lidar e de viver, era o impulso invisível a quase todos… A paixão, o diferente, o algo a mais… O profundo.
 
Disso, torna-se possível deduzir o motivo pelo qual poucos poderiam entender do que me refiro. Vivemos, comumente, no raso, se a temos (a verdade), corremos constantemente o risco de perde-lá na correnteza da trivialidade contemporânea.
 
E se, portanto, você chegou até aqui e não entendeu o que quero dizer com “ver e sentir a verdade em alguém”, tudo bem. Talvez, mesmo em uma conversa de bar, você converse com uma pessoa e sinta-a. Então, saberá do que estou falando.
 
A verdade é uma posição diante da vida, o profundo em meio a superficialidade.
Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes. Pensei que nem havia necessidade de gelo para conservá-los. Gabaram-me a idade do vinho e a fama da safra, mas eu pensava num vinho muito mais velho, mais novo e mais puro, de uma safra mais gloriosa, que eles não tinham e nem sequer podiam comprar. 
O estilo, a casa com o terreno em volta e o «entretenimento» não representam nada para mim. Visitei o rei, mas ele deixou-me à espera no vestíbulo, comportando-se como um homem incapaz de hospitalidade. Na minha vizinhança havia um homem que morava no oco de uma árvore e cujas maneiras eram régias. Teria feito bem melhor visitando-o a ele. 
Até quando nos sentaremos nós nos nossos alpendres a praticar virtudes ociosas e bolorentas, que qualquer trabalho tornaria descabidas? É como se alguém começasse o dia com paciência, contratasse alguém para lhe sachar as batatas, e de tarde saísse para praticar a mansidão e a caridade cristãs com bondade premeditada!Henry David Thoreau, in ‘Walden’

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Sobre o autor

Isadora Tabordes

Isadora Tabordes

Cofundadora e desenvolvedora do site Vida em Equilíbrio, estudante de Filosofia na Universidade Federal de Pelotas.

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto, do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é...
E se soubessem quem é, o que saberiam? Fernando Pessoa