Esta mensagem foi apagada

Recentemente pedi para um colega que estava sentado ao meu lado me mandar um documento por e-mail e, depois de um par de minutos sem ter recebido, soube que ele colocou uma regra em seu Outlook para segurar os correios por 15 minutos antes de saírem de sua caixa postal. “É que tenho o costume de me arrepender de algumas mensagens e, depois que coloquei esta regra, já me salvei algumas vezes de mim mesmo”. Dei muita risada com aquele seguro-proteção contra si próprio e descobri que alguns outros do time tinham criado regras similares. Um colocou 2 minutos, outra 5 e ele 15. Cada um sabe quanto tempo precisa para notar um erro ou então para dar uma respirada, esfriar a cabeça e perceber que uma resposta impulsiva não vai esclarecer as coisas, muito pelo contrário. Apesar de ter achado graça, tenho o telhado de vidro. Também já me arrependi de alguns textões desnecessários em situações profissionais em que o sangue ferveu.  Lembro até que já me fiz valer daquele recurso de recall para evitar que uma comunicação particularmente avariada chegasse aos meus interlocutores.

Recentemente o WhatsApp também se tornou mais sensível a estas patetices humanas e adicionou a possibilidade de apagar mensagens até 7 minutos após tê-la enviado (aparentemente este é o número mágico do Zuckerberg).  Foi um recurso bem-vindo para os mestres das pisadas de bola (mensagens para destinatários errados mereceriam uma crônica à parte), mas também veio para salvar os esquentadinhos e impulsivos de plantão. Quantas e quantas pessoas já escreveram aquele comentário ácido e inconsequente, apenas para apagá-lo meio minuto depois? Só não consigo entender a ironia da ferramenta deixar o registro incriminador: “Esta mensagem foi apagada” e ainda arrematar com o símbolo de “proibido”.  Por que simplesmente não deletar o não-dito sem deixar rastros? Seria com o intuito sádico de aguçar a curiosidade dos frustrados leitores? Apesar de algumas situações nem deixarem espaço para elucubrações.  Esses dias uma estagiária acordou com uma nota deletada de um amigo colorido às duas da manhã após a balada da faculdade. Ela ainda tinha dúvidas sobre o potencial teor daquele recado não dado, mas todos foram unânimes: não, com certeza não era uma piadinha sobre política, nem uma pergunta sobre o trabalho de grupo! Nesse caso, se fosse enviada, não geraria grandes estragos, pelo contrário.  O desejo costuma ser do bem, principalmente quando recíproco.

Mas apesar de toda essa inteligência humana por trás das tecnologias da comunicação, não existe recurso mais moderno e poderoso do que uma respiração profunda antes de reagir a qualquer coisa que nos gerou alguma sensação negativa.  Aquela meia dúzia de inspirações e expirações que ajudam a compor uma réplica mais digna de ser enviada.  Ou então, aquela boa noite de sono para dar-se conta de que o silêncio pode ser ainda mais eloquente em determinadas situações.  Esquecemos que as emoções são reações químicas e neurais que simplesmente se dissipam.  Muitos, sobretudo os mais jovens, têm o impulso de reagir, tomar uma atitude imediata, numa tentativa inútil de exorcizar do corpo aquela perturbação tão intensa.  E esquecemos que – seja ela positiva ou negativa –  a natureza de qualquer emoção é justamente a de ir e vir, como o movimento de uma onda. Muitas vezes o melhor a fazer é simplesmente deixá-la fluir.  A palavra emoção deriva do Latim (exmovere) e significa justamente deslocamento, movimento. Nada fica congelado para sempre. Existe uma simbologia budista que as compara ao efeito de ondas concêntricas que se formam quando atiramos uma pedra num lago. Há momentos em que vale a pena silenciar e esperar a agitação passar.  Esperar o lago ficar calmo novamente, antes de jogar a próxima pedra.

 

Por Shelly Zaclis Bronstein – Autoterapia

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Sobre o autor

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein escreve crônicas e poemas, é autora do livro Autoterapia e trabalha como executiva de marketing de uma grande multinacional na área de tecnologia. Mora em São Paulo, é casada e mãe orgulhosa do Felipe e da Camila.