Orgulho verde e amarelo

A pergunta que não quer calar: de onde vem meu nó na garganta e os olhos úmidos quando toca o hino antes do jogo do Brasil?  Desde a última copa e o famigerado 7 a 1, passaram-se quatro anos bastante singelos e tranquilos no cenário político nacional. Foram anos de um reforço ufanista-patriótico quase que diário. Tivemos um tranquilo processo de impeachment, que afastou uma presidente altamente carismática e articulada. Decretou-se  a prisão do presidente da Câmara dos Deputados, um sujeito bonachão, íntegro e bastante preocupado com o futuro do país e com o bem-estar da população. Fizeram companhia a ele na prisão os CEOs de algumas das maiores e mais renomadas empresas do país. Empresas que cresceram nos últimos anos única e exclusivamente por mérito de suas brilhantes e inovadoras estratégias de negócio.   Tivemos também o vazamento na mídia de áudios revelando diálogos bastante elegantes e distintos, demonstrando toda a delicadeza, finesse e o engajamento social de alguns dos nossos políticos e empresários mais proeminentes. Para não bastar, vivemos também a prisão de um de nossos mais celebrados ex-presidentes, um homem ético e acima de qualquer suspeita, a alma mais honesta do Brasil.  Foi um período em que fomos condicionados a um orgulho inevitável e inconsciente da bandeira verde e amarela. # SQN.

Foram também anos em que me despedi – em uma frequência alucinante – de alguns dos meus amigos e colegas de trabalho mais brilhantes.  Dezenas e dezenas de jovens (e não tão jovens) talentosos que foram levar sua energia e sua capacidade produtiva para qualquer outro lugar no mapa-múndi, desde que bem longe daqui. Foram meses e meses sendo martelados e massacrados pela vergonha alheia de nós mesmos, então realmente fico surpresa em ver que ainda me sinta tão comovida ao escutar o ressoante “ouviram do Ipiranga”.  Não creio que a emoção seja por conta das margens plácidas e muito menos do brado retumbante, pois afinal, sabemos que ele foi proferido ironicamente por Dom Pedro, um príncipe português, representante máximo do nosso colonizador, em uma espécie de conquista de nossa autonomia política às avessas.  Sempre escutei, desde pequenininha, que já começamos errados!  Começamos errados, continuamos errados, e pelo panorama que se apresenta, seguiremos errados.

Então, por favor, alguém consegue me explicar por que ainda tenho que me conter para não borrar o rímel ouvindo estes sonoros acordes?

Tento segurar as lágrimas me concentrando no novo corte de cabelo do Neymar.  Ou em sua linda namorada que faturou 100 mil reais para usar um sutiã amarelo horroroso durante o jogo.  Penso na fundura dessa ação de marketing de uma marca fast-fashion e de quantas meninas precisam comprar o tal sutiã para ela valer a pena!  E mesmo com todos esses pensamentos elevados, ainda assim noto meus olhos se enchendo de água. E preciso confessar que não são lágrimas por um cabelo ridículo ou por saber que um dia minha filha será irremediavelmente influenciada por uma celebridade ou blogueira de gosto duvidoso. Não! Apesar de tudo e de todos, são lágrimas que me brotam por emoção, pura emoção.

Tudo bem que eu chore por tudo, e que eu tenha uma facilidade surreal de me comover.  Mais do que uma facilidade, é quase um carma.  E constato que nem tudo que me comove passa pelo filtro e pelo crivo da minha cabeça.  As lágrimas muitas vezes são processadas em partes do meu corpo que nada tem a ver com a racionalidade.  O verde e amarelo, a bandeira, a copa devem ter ficado incrustrados em algum lugar entre minhas entranhas, minhas sinapses e meu miocárdio.  A família reunida assistindo aos jogos, o transbordamento do meu tio se atirando de calça social, gravata e óculos na piscina, comemorando a vitória de um jogo qualquer em 86, com amigas fazendo carreata da vitória com meu pai dirigindo um Gurgel sem capota pelo centrinho de Campos do Jordão nas férias de 94, o orgulho triunfante de ser brasileira quando fui morar fora em 2002 – e nosso país era a bola da vez.

Agora a bola murchou de vez.  Guerra civil na cidade maravilhosa e taxas recordes de violência nas outras cidades não tão maravilhosas; burocracias e ineficiências gigantescas em todos os setores; juízes supremos liberando criminosos que nosso sistema penal, quase que ainda espelhado nas Ordenações do Reino, demorou uma eternidade para conseguir punir.  Uma falta de perspectiva de melhora aterrorizante. Minha mente pode berrar em alto e bom som que esse patriotismo não faz sentido nenhum.  Mas eu simplesmente não consigo dominar, e o grito involuntário sai mais forte do que eu: Vai Brasil!

 

Por Shelly Zaclis Bronstein – Autoterapia 

 

Comentários

Comentários

Sobre o autor

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein escreve crônicas e poemas, é autora do livro Autoterapia e trabalha como executiva de marketing de uma grande multinacional na área de tecnologia. Mora em São Paulo, é casada e mãe orgulhosa do Felipe e da Camila.