Liga pontos

Há alguns dias vinha me debatendo por conta de uma decisão de carreira.  Vou, não vou.  Arrisco, não arrisco.  Saio da minha zona de conforto ou fico no quentinho.  Conversei com pessoas do trabalho com perspectivas distintas, fiz lista de prós e contras, mas foi um almanaque de passatempos infantis que ajudou na alquimia da decisão – falta de sinal de Internet a 35 mil pés dá nessas coisas.  Depois do jogo dos sete erros, do caça-palavras, e do labirinto, a epifania veio – quem diria – com o simplório jogo de ligar os pontos.

Eram mais de 200 pontos espalhados em uma gravura completamente disforme; impossível antever o que sairia daquilo.  Aquele traçado aleatório, errático, apesar de terapêutico, não parecia estar criando nenhuma forma minimamente compreensível. Foi apenas lá pelo centésimo septuagésimo nono ponto que o rabisco descontrolado começou a fazer algum sentido, e a imagem amorfa passou a revelar sua harmonia.  Não sei se foi a vertigem da altura ou a taça de vinho (ou a combinação de ambas, que, aliás, dizem ser uma péssima ideia), mas achei aquela atividade tola uma metáfora quase que perfeita – para não dizer óbvia e clichê – da decisão que precisava tomar.

Steve Jobs falou em seu célebre discurso para os formandos de Stanford sobre não ser possível ligar os pontos olhando para frente, apenas olhando para trás.  Minha listinha de perdas e ganhos foi útil para racionalizar a escolha, mas seria uma grande ilusão pensar que consigo ter hoje o panorama completo de todas as belezas ou desafios que irei encontrar na próxima etapa. Será apenas vivendo o caminho e olhando desde a nova perspectiva que conseguirei, de fato, fazer essas conexões – assim como apenas hoje consigo enxergar, com uma clareza surpreendente, a importância que cada pequeno pontinho teve no desenho da minha vida até aqui, por mais que em algum momento ele possa ter parecido desnecessário, fora de eixo ou de direção.

Jobs diz, no mesmo discurso, ser imprescindível confiar em algo: seja em destino, universo, karma, instinto ou qualquer outra coisa que nos ajude a acreditar que nossas experiências irão fazer sentido lá na frente.  Para mim, além de imprescindível, parece inevitável.  Adoro fazer planilhas, listas, planos, projeções, e analisar cenários com alguma pessoa próxima ou com terapeuta, mas sinto que lá dentro – não sei bem onde – já existe uma decisão tomada, torcendo para que meu cérebro a adote.  Parece que não foi à toa que encontrei aquele almanaque para passar o tempo.  Já não era sem  tempo a iniciativa de interromper a analysis-paralysis, fechar o olho, sentir a pulsão e entender que o próximo ponto  estava  lá, apenas esperando eu ter a coragem de conectá-lo.

 

Por Shelly Zaclis Bronstein – Autoterapia

Comentários

Comentários

Sobre o autor

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein escreve crônicas e poemas, é autora do livro Autoterapia e trabalha como executiva de marketing de uma grande multinacional na área de tecnologia. Mora em São Paulo, é casada e mãe orgulhosa do Felipe e da Camila.