Papo-Cabeça

Outro dia saí para almoçar com o pessoal do trabalho, e não sei exatamente como chegamos em um papo para lá de cabeça para uma refeição sem nenhum rastro de vinho, cerveja ou caipirinha.  Um dos meus amigos perguntou se conseguíamos separar obra e autor.  Ele disse que não conseguia, e o exemplo que usou foi o de Woody Allen.  Desde que soube que o diretor se casou com a filha adotiva de sua ex-mulher, achou aquilo tão eticamente condenável que não conseguiu mais assistir a nenhum de seus filmes, não sem um bode imenso vagando pelo cinema.  Acho que justamente em função do exemplo usado, acabei não pensando muito na questão e automaticamente me posicionei do lado avesso, pois amo os filmes de Allen, acho todos absolutamente incríveis.

Meus argumentos foram imprecisos e desconexos, mas poderiam ser mais elegantemente resumidos com a frase “Sou humano.  Nada do que é humano me é estranho”, que agora dando um Google vejo que é de um tal de Terêncio, dramaturgo e poeta romano. Pensei também que seria um tanto ilógico imaginar milhões e milhões de pessoas que amaram House of Cards mudando de opinião sobre a qualidade da série caso as acusações contra Kevin Spacey venham a ser comprovadas. Além dessas situações mais polêmicas, lembrei também de alguns artistas cujas ideias posso até questionar, mas nem por isso deixo de apreciar suas produções.  Adoro as músicas do Caetano e do Chico, por exemplo, mesmo que às vezes suas posições políticas não me deixem nem um pouco odara.

Mas, ultrapassado o assunto, o cafezinho e a conta, saí de lá com a sensação de que estava apenas moendo e derramando palavras. Numa necessidade quase infantil de emitir opiniões em vez de me deleitar com o simples e delicioso prazer de ouvir.  Acho que se me permitisse mais tempo de ponderação e se fosse totalmente honesta comigo, perceberia que eu também tenho meus limites e meus vieses. A própria citação do meu amigo Terêncio pode ser relativa.  Dependendo de nossa visão de mundo, podemos considerar certas coisas inumanas – mesmo que praticadas por um homo sapiens – e nestes casos, fica realmente difícil ter apetite para apreciar a obra de um autor, ator, compositor, pintor, escritor em quem não enxergamos humanidade.  Eu não sou fã de música erudita, mas mesmo se fosse, certamente não me animaria a ouvir e conhecer a música de Wagner, antissemita declarado e convicto, mesmo que todos dissessem ser espetacular.

Mais do que isso, acho que se eu me autorizasse mais tempo de reflexão, veria que não é porque alguém fez um questionamento que eu preciso necessariamente ter algum tipo de posicionamento ou convicção a respeito dele.  Aliás, valendo-me de mais uma citação célebre, Nietsche disse que as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.  Se não tenho convicção nem sobre a substituição dos copinhos descartáveis pelas canecas e copos na copa do nosso escritório (ainda não decidi se sou da turma anti-plástico ou da que salva as águas), que dirá sobre um tema ainda mais complexo como o do distanciamento entre o criador e sua criação.

 

Por Shelly Zaclis Bronstein – Autoterapia

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Sobre o autor

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein escreve crônicas e poemas, é autora do livro Autoterapia e trabalha como executiva de marketing de uma grande multinacional na área de tecnologia. Mora em São Paulo, é casada e mãe orgulhosa do Felipe e da Camila.