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COMO UM CACHORRO ME ENSINOU

Deneli Rodriguez
Escrito por Deneli Rodriguez

Fiz uma visita e na casa tinha um cachorro.
Logo quando cheguei, ele fez questão de pular em mim e me lamber. O dono, sabendo que eu tinha um histórico de medo de cachorros, estava com ele na coleira. Explicou a personalidade do cachorro e que não tinha perigo algum. Quando o soltou, ele saiu correndo, pulando e latindo em direção ao fundo da casa. Lá é uma área verde, cheia de árvores e plantas. O cachorro vinha toda hora perto da gente nos convidado a explorar a área, com muita alegria.
Concentrei-me no que o dono me dizia sobre o pé de abacate, as flores da primavera, a história da casa, dos antigos inquilinos, pra disfarçar o meu receio de estar ali com o cachorro. Ele, sem ligar para como eu me sentia, vinha a todo o momento ao meu encontro abanando o rabo e sorrindo pra mim.
Finalmente entramos na casa e me mantive em pé conhecendo o ambiente, tensa toda vez que o dono se afastava ora para preparar o café, ora pra pegar algo, ora pra ir ao banheiro.
Nos momentos em que eu ficava sozinha com o cachorro, me concentrava em não ficar com medo, esvaziava a mente, ficava ali vivendo o momento presente e torcia para o dono voltar logo e acabar com a minha tensão. O cachorro sem se importar, vinha fazer festa pra mim, pulava no meu colo, lambia minhas mãos, deitava no chão, corria ao meu redor. Aos poucos fui perdendo o receio e até ensaiei um carinho.
Ficamos conversando num sofá e o cachorro dava sempre um jeito de ficar perto de mim, subia por trás do sofá, lambia meu pescoço, colocava a cara no meu colo. Quando eu percebia, me assustava, mas ele já tinha feito.
Ele é uma mistura de cão selvagem com vira lata, um cachorro forte que parece velho por ter pelos brancos, mas que é jovem, apenas três anos de idade.
Fiquei na casa por muitas horas e em todos os momentos que eu me distraia, ele se aproximava, sorria, pulava, me lambia e ficava perto.
O dono no começo se preocupava em chamá-lo quando ele fazia tudo isso, depois, vendo que não tinha jeito, só o chamava quando ele exagerava muito. Exagero de carinho.
E foi assim que eu aprendi que o amor dado não precisa ser correspondido pra acontecer. Que é capaz de quebrar a resistência e afastar o medo.
Aprendi com um cachorro que amor e alegria andam juntos e se alimentam, sem precisar de nada do outro, nem de abertura, nem de empatia; que o que acontece em quem ama transforma quem recebe ainda que esse não esteja disponível para isso.
Aprendi que a perseverança em amar é maior que o medo.
Deneli Rodriguez.
15.10.2018.

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Sobre o autor

Deneli Rodriguez

Deneli Rodriguez

Pensadora, escritora, especialista em autoconhecimento, participa de grupos de filosofia e meditação. É yogini e terapeuta ayurvédica. Estuda Vedanta e Budismo. Atende em consultas particulares (presencial ou virtualmente). É também atriz de cinema e apresentadora. Dá aulas e palestras em grupos, universidades e escolas. Iniciou sua vida acadêmica em Relações Internacionais na PUC-SP, passando por Filosofia, Semiótica, Moda, Ayurveda e Artes Cênicas.