Iceberg

Você já viu algum iceberg?  Eu nunca!  Mas vivo enxergando pontinhas deles, mesmo vivendo no trópico.  Acho que não apenas eu, todos nós vivemos a esbarrar com pontas de icebergs por onde passamos. Nas pessoas com que cruzamos, nas situações que vivemos.  Conhecemos alguém e temos a ilusão de captar aquele ser-humano por sua aparência, seu jeito, sua personalidade. Ignoramos solenemente que aquilo que enxergamos seja apenas uma ínfima parte do todo: a que fica exposta, a céu aberto, disponível ao mundo exterior.  É uma raridade conseguirmos acessar os metros e metros de profundeza submersa – em qual pele habita, com quais filtros enxerga o mundo, com quais medos, quais dores.   Já me resignei com o fato (c’est la vie!), mas vez ou outra ainda me pego louca para colocar um tubo de oxigênio e conseguir ir um pouquinho mais fundo.  Acho que psicanalistas e psicoterapeutas devem se sentir extremamente privilegiados em seus possíveis mergulhos.

Mas para mim, ainda mais frustrante do que não conseguir alcançar a inteireza de alguém (missão impossível até para Freud) seja o fato de rotularmos tudo e todos, independentemente do quão pouco saibamos de verdade.  E veja bem: não estou aqui a julgar quem julga.  Não estou falando necessariamente do juízo difamatório e fofoqueiro, ou daquele ataque bélico e raivoso que está cada vez mais constante nas redes sociais. Estou falando de um selo automático, inconsciente e totalmente involuntário que estamos regularmente (mesmo que silenciosamente) despejando no mundo que nos cerca, por mais que não tenhamos intenção ou maldade nenhuma ao fazê-lo. Muitas vezes completamos as lacunas, de forma imediata e benigna, da mesma forma que o i-phone completa nossas frases quando começamos a escrevê-la: por pura associação . Talvez este seja o core business da mente humana. Um mecanismo sofisticado (ou seria primário?) que rapidamente analisa um novo estímulo, compara-o com as referências do passado para que possamos reagir adequadamente a ele.  Nossa psique está sempre revivendo o que passou para proteger nosso futuro, e por isto, vive catalogando as coisas em diferentes caixinhas, todas minuciosamente etiquetadas.  Este mecanismo certamente nos ajuda a funcionar em nosso dia-a-dia, mas às vezes pode nos atrapalhar também.

De tempos em tempos, talvez valesse um esforço íntimo de libertação. Buscar mais consciência dos nossos vieses involuntários, desembaçar as lentes por mais limpas que elas possam parecer. Lidar com cada situação como se fosse a primeira vez.  Criar coragem para se abrir a toda e qualquer pessoa como se ela fosse absolutamente única no mundo.  Pois assim somos: únicos no mundo.  Talvez possamos correr riscos desnecessários ou viver situações e relacionamentos fadados ao fracasso, mas talvez lentes limpas nos ajudem a ver o mundo com muito mais verdade e mais cor.  Tirar os rótulos para enxergar os vários tons de cinza que existem entre o preto e o branco, e melhor ainda, os milhões de tons de rosa, verde, azul, roxo e amarelo que poderiam estar ali por eles escondidos.

 

Por Shelly Zaclis Bronstein – Autoterapia

 

 

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Sobre o autor

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein escreve crônicas e poemas, é autora do livro Autoterapia e trabalha como executiva de marketing de uma grande multinacional na área de tecnologia. Mora em São Paulo, é casada e mãe orgulhosa do Felipe e da Camila.