A vida, o caos e o brain fog

A vida, normalmente, é o maior vetor de frustração do indivíduo, somos constantemente bombardeados com ideais que estão distantes da realidade comum, e isso se deve a alguns fatores…

Antes de falar dos fatores, devo esclarecer o motivo pelo qual resolvi escrever sobre essa temática; os motivos são muitos, pois há um constante sentimento de inadequação que, todos os dias, me joga na cara o quanto ainda não fiz, praticamente, nada do que propusera. É fácil sentir-se um fracassado, principalmente quando os parâmetros mudam de acordo com o tamanho do indivíduo, sempre haverá alguém maior, logo, a frustração já é certa, não é justo, mas é útil como mecanismo de controle, pois torna a sua vida um dado, que será inevitavelmente menor e menos atrativo que o ideal posto em evidência. Não é exatamente algo contra você, mas um fator de inadequação utilizado para manter um fluxo de recursos numa determinada direção. São os seus sentimentos, alimentando um gigantesco esquema de pirâmide, onde todos vendem sonhos e ideais, mesmo que ninguém tenha alcançado essa “iluminação” da forma que está sendo vendida.
Não conheço vocês, mas a minha vida é um caos, as motivações vêm e vão, de tal maneira que não dá tempo de fazer muito com elas; tudo é interessante, mas dura muito pouco esse interesse. Tudo o que me tornaria alguém mais adequado para “fazer mais dinheiro”, demanda tempo, esforço e dedicação, mas esses itens são difíceis de dominar, pelo menos para mim. Sou um desastre em tudo o que não me traz paixão, e só tenho conseguido estar absorto na escrita, o que seria muito bom, se isso me rendesse dinheiro, o que não é o caso. Sendo assim, oscilo entre a frustração e as críticas externas, onde pessoas, mesmo que bem intencionadas, comparam-me com quem eu não sou; com vidas que não vivi, sempre buscando o ideal de sucesso vendido, e comprado, por todos nós; uns mais, outros menos, mas todos somos vítimas, condenados a sermos insuficientes uns para com os outros.
Nesse ínterim, temos uma constante, desgastando as relações humanas sem qualquer remorso, e isso cansa, a todos os envolvidos, pois o desgaste é democrático; quem fala, quem escuta, todos, tem sua cota…

Perdidos nesse ciclo de insatisfação, acumulam-se as mazelas da mente, daí vem o chamado “brain fog” [névoa mental], uma confusão mental, onde parecemos estar confusos, fora de foco, a mente parece estar “apagando”, o processamento fica comprometido de forma que o próprio sentido das coisas parece nebuloso. Essa condição, pode ser causada por estresse, deficiência de vitaminas, problemas de sono e/ou como uma comorbidade, em casos crônicos de ansiedade. Essa condição é a cereja do bolo, onde você começa a enxergar —ou pelo menos deveria— a gravidade da situação, pois isto já é um sinal de alerta, para nos atermos às razões desse problema. Quando nossa mente começa a falhar, devemos mudar.

É onde estou agora, e talvez seja por isso que estou tentando escrever sobre o assunto. Para entender melhor essa cadeia de eventos… Voltemos; a realidade é mais fácil do que aparenta…

Os fatores de comparação da vida são falsos, pois eles não representam vida, mas uma leitura superficial desta, apenas uma caricatura, sem o peso de uma história, logo qualquer comparação com quem você é, será falha, pois os dados estão incompletos.
Há também a questão da falseabilidade da fantasia, é uma característica do entretenimento, embotar os sentidos de maneira a fazer-nos crer no engano, e nos entregamos a esse de maneira voluntária, pois a vida é complicada demais, logo, é aprazível a entrega, mesmo que momentânea, ao que não é vida. Mas devemos ter em conta, lembrar sempre que essas fantasias não são vida, são imagens criadas para entreter e estão longe da realidade.
Após todo esse percurso fica a questão: Há esperança?

Acreditarei sempre que sim. Agora mesmo, durante essa reflexão, consigo perceber, e compartilhar; a solução, —assim me parece— está em buscar suas razões, entender o que é a sua arte, o que você faz, e ama. Entender isso é um processo, é difícil e requer coragem e perseverança, pois o amor, não necessariamente, irá buscar dinheiro, e isso, costuma ser um problema, mas devemos ter coragem de perseguir algo que satisfaça a alma, talvez aí esteja um passo crucial para ressignificarmos toda uma estrutura social, que tem gerado tanta insatisfação e tantos insatisfeitos.

Já que praticamente nada faz sentido, —no sentido monetário da vida— acabo perdido, pois faz pouco sentido aprender algo para ganhar mais, quando há tanto que não entendo sobre o mundo, sobre mim e sobre a vida em si. Por isso, acabo dedicando mais tempo a entender o que se passa, pois faz mais sentido entender esses processos, antes de aventurar-se, não? Acredito ser mais proveitoso, obter mais informações sobre o que sou, quem sou e o que move esse ser. Talvez aí esteja a chave para a porta que oculta o verdadeiro caminho; aquele que fará sentido, que trará alegria, transfigurando a vida, do perambular trôpego usual em algo sublime. Não sublime da forma que se vende, mas embevecido pela alegria de vivenciar o amor por seu ofício. Que sendo a expressão do que enleva, basta em si; tendo a satisfação do que faltava, tudo o mais será mais fácil, pois nenhuma verdade externa será maior que uma verdade, advinda do amor.

Milton Lavor

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Sobre o autor

Milton Lavor

Milton Lavor

Acredito na força das ideias como forma de mudar o mundo. Estudante de Engenharia elétrica para potencializar as contribuições ao todo. Escritor, desenhista e pintor como resultado do que transborda. Servidor público como profissão e filosofia como paixão. Alguns detalhes escapam por falta de espaço.