O dia que descobri sem entender, o melhor do dia…

Lala

Na areia do mar
São escritas as lendas
Onde ao luar
No mistério vê-se a fenda
Solta no ar
Uma fada de luz
Brinca com as ondas
Brincando seduz
Chamo as estrelas
Do céu e do mar
Como é bom vê-las
Sorrir e brilhar

Fiz esse poeminha para a minha irmã, há uns 15 anos… Procurando algo em meus cadernos, encontrei isto e lembrei do dia em que isso ocorreu…

Houve um tempo, em que eu forçava os limites, passava algumas noites em claro escrevendo, pois estava convencido de que deveria dormir apenas um dia, ficando acordado no dia seguinte, e assim o fiz, por pouco tempo, devo acrescentar… Juventude é uma época engraçada; tanta potência e tanta prepotência, que o conhecimento de si, não é lá algo muito atraente. Há tanta força, que as consequência não intimidam, e talvez por isso, essa —e outras— experiências, faziam sentido, pelo menos matematicamente a conta fechava, mas sempre faltam dados quando a equação é montada por alguém inexperiente.

Bem… Minha irmã, sempre me pedia para ir comigo à praia, porque após a morte do nosso pai, ela saia pouco, então combinei com ela, que devia ter seus 13 anos e com minha outra irmã, —achei que deveria ser justo também com ela e levá-la também— quatro e quarenta e cinco, vou acordá-las, elas são crianças e como tal, a vontade de sair do aconchego da cama pouco antes do sol nascer, não é muita não. Mas trato é trato, e insisti um pouco. Marianne desistiu, mas Laurênia [Lala] acordou. Esperei ela se arrumar, e caminhamos até a praia, morávamos a poucos quarteirões na época. O céu, ainda estava uma miríade de cores e formas, o tempo estava nublado, frio ainda; o sol já havia saído, mas ainda não tinha se apresentado, estava colorindo as nuvens pesadas, em tons de azul e roxo, que a luz do sol tornara laranja, vermelho e rosa. Nas ruas, quase não havia movimento, e caminhamos quase sem conversar, até avistar a areia.

Chegamos e o céu estava mais claro, o azul e o roxo, estavam dando lugar aos tons de amarelo, mas ainda havia laranja e rosa, tudo misturado, um céu lindo, uma pintura, que não haveria outra igual. O cheiro do mar, o barulho das ondas, a textura da areia, aquilo energizou minha irmã, que não se conteve e começou a correr. Sorria, pulava, rodopiava no ar, naquele momento, percebi a beleza que há no agora, a inocência daquela criança, que junto comigo, havia perdido o pai, cuja família perdera uma parte da estrutura, estava feliz; pela praia, pelo passeio, pela beleza que havia em todos os lados, não havia brecha para nada que não fosse o belo. A inspiração daquele momento, era densa, porém minhas limitações eram maiores do que são hoje, só consegui fazer um poema curto, só aproveitei aquele momento, mas o aprendizado demorou muito para chegar, esqueci, durante muito tempo aquele céu, a alegria e o riso, que me trouxeram uma lição que demorei muito a compreender; a vida continua, há pouco tempo para gastar com o que passou, melhor mesmo, é se deixar encantar pela vida, pela beleza, onde a alegria inocente de ver o céu e o mar são tudo o que interessa, e dedicar-se a isso por um momento, faz toda a diferença do mundo.

Milton Lavor

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Sobre o autor

Milton Lavor

Milton Lavor

Acredito na força das ideias como forma de mudar o mundo. Estudante de Engenharia elétrica para potencializar as contribuições ao todo. Escritor, desenhista e pintor como resultado do que transborda. Servidor público como profissão e filosofia como paixão. Alguns detalhes escapam por falta de espaço.