O som ensurdecedor das portas entreabertas

Autoria: Isadora Tabordes

   As verdades, os nossos mais profundos sentimentos pressionam nossos peitos, bloqueiam nossa passagem para o lado de lá, tornam-nos prisioneiros do lado daqui, das saudosas manhãs ensolaradas, porque gostaríamos que ficassem, porque gostaríamos de dizer o que calamos. Em vez disso, tudo que fazemos é encostar a porta, ou, a deixamos entreaberta, por onde surgem os ventos mais fortes e os sons mais dolorosos, e, mesmo assim, não tomamos a decisão de escancarar e viver ou terminar em um golpe fatal com aquelas batidas fortes recorrentes, até que chegue o hoje, até que chegue o nível do insuportável. Não é com frequência, portanto, que conseguimos anunciá-los, encará-los, mas é lembrando o limite da vida que percebemos que os doces escondidos nas gavetas da vida só podem ser encontrados quando somos sinceros com nós mesmos e, para isso, devemos admitir que as portas são fáceis portais para se passar.

   A sinceridade às vezes pressupõe que pulemos dos botes salva-vidas e nos lancemos às tempestades do mar, mas não devemos negar que a saída é sempre pagar o preço para seguirmos fidedignos com nossos corações.

   Nietzsche nos lembrou disso com a seguinte passagem:

 “Nunca é alto demais o preço a se pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo.

   Nossos corações, no entanto, não facilitam nossas vidas, pelo contrário, buscam abrir as portas para as quais parecem não ter chaves, buscam casas fechadas e ruas desertas em meio à noite em datas em que o terror é aceitável e que nos escondemos por trás de verdadeiras máscaras.

   Certa vez ouvi que os frutos da árvore da vida estão sempre ao nosso alcance, nesse sentido, basta que possamos colher sem demora as coisas que nos apetecem, sem nunca, jamais, colher o que não queremos colher e, no entanto, buscar laboriosamente nossas verdadeiras paixões.

Vambora? Na cinza das horas…

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Sobre o autor

Isadora Tabordes

Isadora Tabordes

Cofundadora e desenvolvedora do site Vida em Equilíbrio, estudante de Filosofia na Universidade Federal de Pelotas.

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto, do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é...
E se soubessem quem é, o que saberiam? Fernando Pessoa