Coronavírus: Há risco para os jovens, afinal? O que os dados mostram até agora

O alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) foi como um legítimo puxão de orelhas dos pais: jovens não estão imunes contra o coronavírus e têm que evitar socializar e interagir com os mais velhos e os mais vulneráveis.

Segundo o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, as escolhas tomadas pelos mais novos podiam significar “a diferença entre a vida e a morte para outra pessoa”.

“Tenho uma mensagem para os mais jovens: vocês não são invencíveis; o vírus pode colocá-los no hospital por semanas ou até matá-los. Mesmo se vocês não ficarem doentes, as escolhas que vocês fazem sobre aonde vão podem significar a diferença entre a vida e a morte para outra pessoa”, disse ele na semana passada.

A fala ocorreu em meio à divulgação de imagens de jovens de diferentes partes do mundo burlando ou ignorando medidas de distanciamento social anunciadas por seus países para tentar conter a propagação do vírus.

Até agora, a pandemia causada pelo novo coronavírus já infectou cerca de 380 mil pessoas e deixou mais de 16 mil mortos. O país mais afetado é a Itália. Outras nações, como o Brasil, correm contra o tempo para evitar catástrofe semelhante.

Mas o que os dados mostram até agora sobre a relação entre os mais jovens e a doença?

Basicamente, o risco de morte por covid-19 entre aqueles abaixo de 50 anos, especialmente os mais jovens, de até 30 anos, é extremamente raro.

Mas isso não quer dizer que eles estão livres de apresentar os sintomas mais graves da doença, ainda que, de fato, a probabilidade disso acontecer nessa faixa etária seja menor do que a dos idosos.

Em entrevista recente à BBC News Brasil, Willem van Schaik, professor do Instituto de Microbiologia e Infecção da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, disse “ser muito errado pensar que aqueles abaixo de 50 anos sempre vão ter sintomas leves: haverá indivíduos mais jovens e muito doentes também e eles vão precisar de tratamento”.

Uma das razões para a baixa mortalidade entre os mais jovens é que seu sistema imunológico é mais forte, o que ajuda a combater o vírus e a recuperar-se da doença.

“Nos idosos, o sistema imunológico já envelheceu e não produz o mesmo nível de resposta, por isso, eles têm mais risco de desenvolver os sintomas mais graves”, disse à BBC News Brasil infectologista Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e diretor-médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Rio de Janeiro, também em entrevista recente.

No entanto, segundo relatos de médicos na linha de frente do combate ao coronavírus, o problema é que os jovens, justamente por serem menos susceptíveis a desenvolver os sintomas mais graves da doença, acabam expondo-se mais ao risco e, como resultado, podem ocupar leitos que poderiam ser destinados àqueles que mais precisam deles.

Em entrevista ao programa de rádio RaiNews24, da emissora pública da Itália, Luca Lorini, responsável pelo setor de anestesia e cuidados intensivos de um hospital em Bergamo, no norte da Itália, disse que o “tipo de paciente está mudando”.

“Eles são um pouco mais jovens, entre 40 e 45 anos, e seus casos são mais complicados”, acrescentou.

No Reino Unido, o vídeo de uma mulher de 39 anos viralizou no WhatsApp. Com muita dificuldade para respirar, Tara Jane Langston, que é mãe de dois filhos e não tem doenças pré-existentes, contou, ofegante, sobre como seus sintomas evoluíram desde que contraiu o vírus.

Ao jornal britânico The Telegraph a médica Rosena Allin-Khan, atualmente parlamentar, falou que decidiu ajudar seus ex-colegas de um hospital no último de semana e viu o pronto-socorro “inundado por pacientes doentes, jovens saudáveis e em forma, nos seus 30 e 40 anos, lutando por suas vidas, por causa do covid-19”.

Já nos Estados Unidos, um relatório divulgado na quarta-feira passada (18 de março) pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) mostrou que, dos 508 pacientes hospitalizados no país por covid-19, cerca de 40% tinham abaixo de 54 anos. Desse total, 20% tinham entre 20 e 44 anos e 18%, entre 45 e 54 anos.

Contudo, adultos acima de 65 anos eram a maioria dos mortos (80%). Menos de 1% dos óbitos era de pacientes entre 20 e 54 anos, e não houve mortes entre aqueles abaixo de 19 anos, acrescentou o órgão.

Em um artigo de opinião no jornal The New York Times, a americana Fiona Lowenstein, de 26 anos, contou o que passou ao contrair o vírus. Segundo ela, que não tem nenhuma doença pré-existente, tudo começou em uma sexta-feira, ao sentir dor de cabeça e febre.

“No domingo, comecei a me sentir melhor e minha febre se foi (…) mas acordei no meio da noite com calafrios, vômitos e falta de ar. Na segunda-feira, eu mal podia falar mais do que algumas palavras sem me sentir ofegante. Não podia caminhar até o banheiro sem ficar esbaforida, como se eu tivesse corrido. Na segunda-feira à noite, tentei comer, mas descobri que não tinha oxigênio suficiente enquanto fazia isso. Qualquer tarefa me deixava desesperada por oxigênio”, escreveu ela.

Taxa de mortalidade dos jovens ao redor do mundo

Na China, onde o coronavírus surgiu, a taxa de mortalidade de infectados com covid-19 abaixo de 50 anos também foi muito baixa, menos de 0,4%.

Na Espanha, até o último sábado (21 de março), 34 dos 129 casos confirmados de covid-19 entre crianças de zero a nove anos resultaram em hospitalização (26%). Uma criança teve que ser internada na UTI (0,8%) e não houve mortes nessa faixa etária.

Já entre dez e 19 anos, dos 221 casos, 15 foram hospitalizados (7%) e nenhum deles precisou de cuidados intensivos. Uma pessoa nessa faixa etária morreu, uma taxa de mortalidade de 0,4%.

Dos 1.285 casos de pessoas de 20 a 29 anos que contraíram o vírus, 183 foram hospitalizadas (14%) e oito delas foram levadas à UTI (0,6%). Desse total, quatro morreram, uma taxa de mortalidade de 0,3%.

Por fim, entre os que tinham entre 30 e 49 anos, foram 5.127 casos confirmados da doença. Desse total, 1.028 pessoas foram hospitalizadas (20%), das quais 55 precisaram de cuidados intensivos (1,1%). Três pessoas morreram, uma taxa de mortalidade de 0,2%.

Dados do governo italiano mostram que 12% dos pacientes que estão sendo tratados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) têm entre 19 e 50 anos
Dados do governo italiano mostram que 12% dos pacientes que estão sendo tratados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) têm entre 19 e 50 anos

Foto: EPA / BBC News Brasil

Na Itália, o país mais afetado pela pandemia do coronavírus, 12% dos pacientes que estão sendo tratados nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) têm entre 19 e 50 anos, 52% têm entre 51 e 70 anos e 36%, mais de 70 anos, segundo o Ministério de Saúde do país.

Em compensação, a taxa de mortalidade entre 19 e 50 anos é bem pequena, cerca de 1%.

De acordo com o Instituto Superiore de Sanità, até esta segunda-feira (23 de março), foram 53 mortes entre 19 e 50 anos (nenhuma abaixo de 30 anos, 12 entre 30 e 39 anos e 41 entre 40 e 49 anos).

No Brasil, já são cerca de 1,9 mil infectados e 34 mortos, a maioria com mais de 60 anos.

Fonte: Terra

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