Tudo o que eu sempre quis dizer, mas só consegui escrevendo

Nestes dias terminei de ler o mais novo livro da atriz e escritora Maria Ribeiro, uma coletânea de cartas e mensagens destinadas a amigos, amores, ex-amores, familiares e a algumas pessoas desconhecidas, como por exemplo Freud, Steve Jobs, um motorista de Uber.  Achei a leitura deliciosa, principalmente pela explosão de sentimentos e por tamanha coragem de expô-los. Mas o que me trouxe aqui não foi a ideia de indicá-lo, pois definitivamente não é um livro de que todos iriam gostar.  Consigo antever a indagação de muitos: “Por que raios eu teria algum interesse em saber o que a Maria Ribeiro tem para dizer para o Gregório Duvivier, para a Camila Pitanga, para a Fernanda Lima ou para o Caco Ciocler?”.  Apesar de os textos – como o que foi escrito para seu ex-marido, para a ex-mulher do seu ex-marido, para seu segundo ex-marido, para sua mãe, para seus dois filhos – emocionarem pela beleza dos sentimentos, admito que, para apreciar a obra na íntegra, é necessário, sim, um mínimo de curiosidade em torno de alguns bastidores célebres.  Mas, de qualquer modo, minha inspiração para escrever esta coluna não veio do miolo, e sim do seu título: “Tudo o que eu sempre quis dizer, mas só consegui escrevendo”.  Este deveria ter sido o título do meu livro.

Por que será que algumas coisas são muito mais fáceis de serem escritas do que ditas?  

Sei que esta não é necessariamente uma verdade universal, mas se acontece até com uma atriz/apresentadora – que até pouco tempo atrás integrava o Saia Justa, programa no qual era paga para emitir opiniões até sobre assuntos que não dominava – isto pode acontecer com qualquer mortal. 

Por um lado, acho que pode ser uma forma de expressão mais confortável para pessoas com perfil mais “quieto” (falo de mim, e não da Maria, pois não a conheço!).  Por outro, acho que pode ter a ver com os condicionamentos que todos nós – independente da personalidade – vamos sofrendo ao longo da vida.  Desde muito pequenos, vamos aprendendo que algumas posturas, comportamentos e opiniões são bem-vindos, enquanto outros nem tanto.  Quantas vezes fizemos ou dissemos coisas no auge de nossa espontaneidade e fomos surpreendidos com uma reprimenda ou com uma reação bastante diferente daquela que imaginávamos, seja por parte dos nossos pais, amigos ou mesmo desconhecidos?  Às vezes, nem temos mais memórias dessas experiências, mas dependendo da frequência e intensidade delas, passamos – conscientemente ou não – a criar filtros para o que fazemos ou falamos, e muitas vezes passamos até a moldar nossa postura e nossas ideias, achando que assim serão mais bem recebidas pelos nossos interlocutores. Apesar de um pouco triste e castrador, este é um processo natural e inevitável do amadurecimento de qualquer ser humano. Parece que um dos motivos do uso do divã na psicanálise está relacionado justamente com esta questão.  Sem olhar para o psicanalista, o paciente se sente mais solto para falar abertamente, sem que as eventuais reações dele(a) – mesmo que involuntárias e muito sutis – possam impactar essa livre e autêntica associação de ideias.  Acredito que a escrita pode, sim, ser análoga ao divã nessa sensação de liberdade.  Claro que há sempre a perspectiva de que alguém irá enfim ler aquelas linhas (afinal, este é exatamente o objetivo), mas estar consigo próprio, tendo o tempo e a calma necessária para processar e organizar as ideias, acaba criando essa atmosfera de proteção, como alguém que vai, ponto a ponto, tecendo uma peça de tricô ou de crochê.

Mas na verdade, acho que há coisas que só conseguimos dizer escrevendo, pois, a escrita é muito mais do que apenas um meio de retratar um pensamento.  Escrever é – pelo menos para mim – o próprio ato de elaborar a reflexão. Muitas vezes, não sabemos exatamente o que pensamos ou sentimos até o momento em que derramamos aquilo no papel, como em um processo químico de revelação fotográfica.  Pouco a pouco, a imagem vai ficando mais nítida para o seu próprio criador, e finalmente compreendemos aquilo que antes era apenas um emaranhado de emoções. O texto – seja ele um bilhete, um e-mail, um post, uma carta, um conto – passa a ser um retrato do nosso mundo interno naquele exato instante, cristalizado em algumas linhas. Pode ser que daqui a um mês, um ano, uma década, tenhamos dificuldade em nos reconhecer naquelas palavras.  Mas assim como uma foto é o retrato mais fiel do nosso entorno, a escrita é a fotografia mais fidedigna do que se passava dentro de nós em um determinado instante.

 

Por Shelly Zaclis Bronstein – Auroterapia

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Sobre o autor

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein escreve crônicas e poemas, é autora do livro Autoterapia e trabalha como executiva de marketing de uma grande multinacional na área de tecnologia. Mora em São Paulo, é casada e mãe orgulhosa do Felipe e da Camila.